sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Vasos Também Voam


E aí ele disse:
“Estar contigo é nadar em águas calmas... Pisar em solo plano”.

Ela sentiu que aquilo deveria ser um elogio, já que havia certa ternura em sua voz... Já que a declaração seguiu-se de um afago doce, quase fraternal...

Águas calmas.
Solo plano.

Ela queria ser montanha russa, Paris Dakar...
Ela queria subidas e descidas, frio na barriga, queda livre...

Solo plano e águas calmas: Isso parece matéria prima de vaso de barro... Enfeite na estante, imóvel sobre o móvel, cumprindo um dos papéis mais primitivos da mulher: Esperar.

Esperar que ele volte da caça.
Esperar que ele a queira.
Esperar sua cria.

Esperar
Esperar
Esperar

Em 2008 esperar:
Que ele volte da caça?
Que ele a queira?
Que ele continue querendo caminhar em círculos nesse terreno limitado.
Banhar-se nessas águas previsíveis.

Ela continua esperando:
Que o papo cale,
Que a cerveja acabe,
Que a TV desligue,
Que a promessa se pague:
Ser prioridade.

Ser mármore, não barro;
Estátua nua, carne de Vênus De Millus;
Obra de arte e não enfeite, adereço de decoração:
Um grotesco e inócuo jarro.

É tão tarde... Tarde demais.
Nada nunca será o mesmo.

O jarro quebrou.
Alguém mexeu no vaso empoeirado na estante...
E descuidado deixou cair.
Barro seco se espatifa no chão...
Os cacos são mais belo que o vaso em si...
Os cacos têm mais vida...
Os cacos têm uma história...

A história da queda:
Ela começa com o cambalear indeciso: Tombar ou atirar-se no abismo...
Enfim queda livre.
Choque do corpo no piso frio.
Sem amortecedores.
Carne em cacos.
Alma em cacos.
Se tivessem voz, os cacos ecoariam um tênue gemido de prazer por ser o que são: História de um vôo... Movimento e caos.

Crash seco.
Crash por dentro.
Crash.

Ele recolhe os cacos...
Em pedaços, ele ainda quer a peça:
Remendada.
Parada na estante.
Em uma prateleira mais alta...
... Para não acontecer de novo.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Entre o Céu e a Terra


Estou no ar...
Não é figura de linguagem não... É isso mesmo.
Escrevo agora do lado da janelinha, uma hora e vinte após a decolagem...
Já estou a uma altura que não dá pra ver nada lá embaixo...
Já deu tempo para eu sentir e achar tudo, menos graça...
É, não achei graça nenhuma quando a voz do piloto ou comissário de bordo pediu para que todos permanecêssemos sentados e com o cinto afivelado porque estávamos passando por uma área de instabilidade...

Precisava balançar tanto?

Eu estou sempre em área de instabilidade, nem por isso fico me sacudindo por aí...
Enfim...

Acho que me atualizei com Deus... Santos... E uma vez a caminho da Bahia, por que não, com os Orixás também!

Viva o sincretismo religioso!!!!

As orações que eu estava devendo já foram feitas... Estão em dia...

Quanto à instabilidade, a do avião passou logo... Coisa de 40 minutos... A do avião...

Sobre a minha, pergunto:

Instabilidade constante pode ser considerada instabilidade... Ou vira estabilidade?

Afinal, trata-se de uma condição permanente... Como quando a exceção repete-se tanto que vira regra.

Sobre regras... Não gosto delas... Talvez por isso eu insista tanto “em coisas” que “via de regra” estão fadadas ao insucesso...

Sabe aquelas situações em que você se prepara para o ‘amor entrar’... Abre a porta, acende a luz, acena para ele... E ele não se move?
Fica parado ali no portão de entrada...
Te fita... Mas nenhum passo...
Você chama, pensando que talvez lhe faltasse o convite... E pensa que finalmente ele vem...
E nada.
Fica ali, sem entrar ou sair... Apenas bloqueando a passagem!

Há situações tão claramente assim em nossas vidas...
Há pessoas nitidamente assim...

Uma amiga apaixonou-se uma vez (uma das vezes)... Por um ‘tipinho comum’...De traços exóticos que todo mundo tem... Atitudes previsíveis também... Final da história mais ainda...

Hoje... Sua TPM tem o nome dele... São crises de resgate da lembrança do que foi... Saudades do que poderia ter sido...
Milhares de questionamentos...
Nenhuma resposta...
Milhares de culpas...
Nenhum culpado...

E o pior... Pior mesmo é que vários pescoços, vistos de um determinado ângulo... Vários narizes de perfil... Várias bocas entre abertas... Vários cerros de olhares... A ela, parecem exatamente dele... Assombração.

‘Tipinho comum’... Outro que não passou nem do portão de entrada... Nem ao menos pisou no jardim... Brincou no portão e ficou lá... Se esse tipo de coisa fosse visível... Estaria ele lá... Prostrado no portão da frente... Atrapalhando a passagem...
Existindo lá só para ninguém entrar... Chato... Denso... Dolorido... E infame.

Ainda no avião... Faltam 5 minutos para a hora que a Cia Aérea me prometeu que eu estaria em terra firme... Inteira... Vivinha e sem traumas...

Olho em volta... Se minha amiga estivesse aqui, encontraria partes ‘do seu tipinho’ em pelo menos uns cinco ou seis passageiros...

E eu concordaria com ela... Talvez dissesse que qualquer um deles é mais bonito que ‘o tipinho’ (Por birra, sabe? – Proteção de amiga!). Mas como ela não está aqui agora... Vou concentrar-me em mais dois ou três pares de oração... Para que corra tudo bem na aterrissagem e eu possa publicar esse texto no blog.

* 21.09.2008 – 21h00 – A caminho de Salvador.


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Pedindo mais... Pedindo demais?


Me ama assim:
Como eu me pareço para mim -
Porque é exatamente assim que sou...

Talvez um pouco melhor,
Talvez um pouco pior.

Me ama com minhas vontades,
Me ama com as minhas maldades,
Me ama com as minhas inconstâncias,
Me ama com
as minhas distâncias.

Me ama como sou hoje...
Porque ontem... Ontem é só memória.
Para me amar ontem é tarde demais.
É história.

Me ama agora
E ama aquela que eu serei amanhã.

Vibra comigo por eu ter coragem de ser quem sou a despeito do que fui...

Me ama sem demora,
Porque quem eu fui ensinou quem eu sou a te amar
E hoje também quero ensinar...
Quero contar para eu-desconhecida que você é homem para todas-eu amar:
O homem em minha vida.

Me ama com o meu egoísmo
E nas minhas ausências esteja comigo.

Escuta: Seja amante, seja amigo.
Derruba: Minhas defesas, me dá abrigo.
Tira proveito: Deleite-se com o melhor de mim.
Muda o conceito: Esqueça o não, me enche de sim
E mais uma vez... Deleite-se com o melhor de mim.
E outra vez: Deleite-se com o melhor de mim...
Repetidas, incansáveis, incontáveis vezes... O melhor de mim.

E assim, confia... Porque estou contigo.

Faz do teu peito o melhor lugar pr’eu estar.
Faz do teu leito o melhor lugar pr’eu gozar.
Faz do teu corpo e teu suor salgado, meu porto e meu mar.

Quero querer-te.
Temo perder-te.
Perde-te de mim.
Perder-te no fim.
Perder-me de mim.

Me deixa ir...
E vem comigo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Desculpa-me



Ah... Desculpa-me...

Desculpa-me te gostar amando...
É só assim que sei fazer...
Desculpa-me te experimentar devorando...
É só assim que eu sei ser.

Desculpa a minha overdose de tua homeopatia... Eu não sei parar.
Desculpa-me por compartilhar rindo e chorando a tua apatia... Não sei me comportar.

Desculpa a minha reação exagerada diante de quase nada...
Quase sempre certa... Quase nunca errada.

Desculpa a minha repetição... Essa coisa de palavras triplicadas... Mas quando faço isso digo realmente o que quero dizer;
Entenda a cada três uma:
Sim, sim, sim é SIM...
Muito, muito, muito é MUITO...
Amo, amo, amo é AMO...

Se eu disser uma vez e apenas uma vez, desconfie.

Desculpa essa minha certeza incerta, minha decisão indecisa...
É que não preciso ter certeza para decidir...
Então tudo acontece em mim como um transe de 10 dias, de 10 anos...

Desculpa as minhas convicções nada invictas...
Desculpa-me a violação virginal...
Desculpa meus pecados cheios de Deus...

Desculpa a força das minhas fragilidades...
E desculpa também a fragilidade da minha força...

Desculpa-me se da rosa, sou menos pétalas e mais espinhos.
Desculpa-me por ter sonhos grandiosos, e pensamentos mesquinhos.

Desculpa a violência, desculpa a minha demência, desculpa minha sanidade que é assim.

Desculpa-me minha flexível sinceridade...
Desculpa-me por corromper a tua a mentira com um pouco da minha verdade...

Desculpa-me a total falta de intenção de que tu me desculpes...

Desculpa-me por não querer teu perdão.

Ah... E desculpa-me por encerrar sem verso original, e preferir a citação:

"Termino essa minha vida exausto de viver, mas querendo ainda mais vida, mais amor, mais travessuras. A você que fica aí inútil, vivendo essa vida insossa, só digo: Coragem! Mais vale errar se arrebentando do que se preparar para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte." - Darcy Ribeiro.


Hoje, eu queria mesmo era publicar essa citação de Darci Ribeiro acima “Termino essa minha... a nossa parte”, mas não apenas ela...

Para mim é assim... Vou sempre querer mais vida...
Nada nunca é o suficiente...
É difícil ser só feliz quando se experimenta ser plena... Mesmo que brevemente, o gosto fica na boca um tempo... na alma para sempre.

E eu sei que isso faz de mim uma pessoa perturbada e perturbadora demais...
Mas eu sou assim e se incomodo, aproveito ‘a deixa’ e peço desculpas...
Sem nenhuma intenção, vontade ou necessidade de receber perdão.


quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Escárnio


Lembrou-se de uma noite em sua história, do ronco ‘cala a boca, quem sabe outra hora’ – a habitual resposta para as suas solicitações: Precisamos conversar...

Lembrou-se da sensação desesperadora da morte de mais algumas frações do amor sem fim...

Tolice... Amor sem fim...

Lembrou-se de como atirou os objetos contra a parede... Vaso, porta-retratos, telefone, quebrando-os um a um...

Quem dera fossem sua própria cabeça, seus braços, seu próprio corpo seco atirado contra a parede coberta de umidade...

Lembrou-se...
Só lembrou-se...

Escárnio!

Sentada à mesa da cozinha, refletia sobre as ameaças que acabava de ouvir...
Novas palavras sobre velhas coisas...

‘Se eu começar a falar... ’
‘Se eu fizesse... ’
‘Se eu quisesse... ’
‘Se... ’
‘Se... ’
‘Se... ’

Escárnio.

Pode dizer – pensava ela, que já as sabia... E ria...

Escárnio.

Vai me chamar de vagabunda, egoísta, irresponsável.

Escárnio.

O que é um homem que olha sua mulher e enche-se de acusações prontas, para cuspir se ela ousar fala mais do que ele quer ouvir...

O que é um homem que tem em sua cama uma puta adormecida ou uma princesa insone... E fica imóvel, diante da opção de montar sobre ela ou acalantá-la, recebê-la em afago...

Ameaças...

Só ameaças:

Ameaçou ser o homem de sua vida;
Ameaçou ser o algoz de seus sonhos;
Ameaçou ser a vítima de seus anseios;
Ameaçou ser tirano;
Ameaçou ser profano;
Ameaçou amá-la sobre todas as coisas;
Ameaçou perdoá-la;
Ameaçou... E nada foi...

Apenas subsídio para a constatação de que o amor é se não, logo será, nada.
Subsídio para juntar-se ao coro de que a solidão dentro de cada uma não encontrará alívio no peito de ninguém.

Escárnio.

A palavra ‘vagabunda’, a palavra ‘egoísta’, a palavra ‘irresponsável’ atribuem características a essa mulher que não sente nada...

As palavras que deveriam destruí-la dão forma a esse barro abandonado que se tornou seu corpo e sua alma.

Escárnio.

Gargalha sem parar em escárnio...
Em agradecimento...
Qualquer coisa serve...
Ela só precisa ser.

Desobrigada de tudo ela agradece:

Obrigada, muito obrigada.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Agosto


Não consegui falar de agosto antes de o mês acabar...

Curioso... Seria falta de concentração ou o efeito do conturbado mês do desgosto?

Nas minhas voltas pela Internet, obtive algumas respostas sobre ele...
Verdadeiras? - Não sei... Ainda assim respostas...

O mês do cachorro louco tem esse apelido no Brasil porque as condições climáticas do período agem sobre as cadelas, intensificando o cio... Com isso, os machos que brigam ‘na base de mordidas’, por suas fêmeas, espalham a ‘raiva’ através da saliva, aumentando a incidência da doença, nesses 31 dias malditos...

Loucura.

Eu poderia fazer vários tipos de analogias... Dizer que cadelas de todas as espécies são afetadas pelo cio... Ou dizer que as fêmeas do mundo ‘TV ColOSSO’ estão mais bem servidas que as demais, afinal, ser disputada ‘a dentadas’ não é para qualquer uma... Mas aí, eu estaria fugindo do foco...

Acontece que o mês tem essa conotação agourenta não só no Brasil... Outros lugares do mundo também desgostam de agosto.

Li, em um texto de Raphael Roale (
http://cariocanocerrado.com) que lugares como Portugal, África, França, Polônia e por aí vai, tem bons ou melhor, maus, muito maus motivos para ter suas reservas diante do mês.

Por outro lado, li também em no ‘Fim da Vársea’ (
http://www.ofimdavarzea.com), uma coisa boa sobre agosto... Dia 31 foi o dia do blog! Que legal! Mais um dia para comemorar... Eu que adoro festas, brindo essa descoberta!

Que seja... Para mim, agosto é o mês da intensidade... Simpatizo com o número 8, que deitado simboliza o infinito...

Desejo infinito...
Sentimento infinito...
Sonho infinito...
Fé infinita...
Intensidade!!!!!

Agosto já abrigou momentos decisivos da minha história...
Momentos fortes, cheios de guerra...
Intensamente bons... Intensamente maus... Absolutamente intensos.

Difícil mesmo é setembro...
Pura ressaca...
Ressaca de agosto:
Gosto amargo na boca... Cabeça latejando... Estômago virado...
É tudo o que fica...

O que acontece em agosto, fica em agosto...
É a antítese: O infinito na finitude dos 31 dias do mês...
31 dias abençoados ou amaldiçoados... A gosto do freguês.

Que venha setembro... Esse mês ‘cansado’...
A primavera por todos os lados ... E o inverno dentro de mim...

Como diz a canção do Green Day.: ‘Wake me up when September ends’.

Traduzindo: ‘Me acorde quando setembro terminar’.



Wake me up when September ends


Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends
Like my father's come to pass
Seven years has gone so fast
Wake me up when September ends
Here comes the rain again
Falling from the stars
Drenched in my pain again
Becoming who we are
As my memory rests
But never forgets what I lost
Wake me up when September ends
Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends
Ring out the bells again
Like we did when spring began
Wake me up when September ends
Here comes the rain again
Falling from the stars
Drenched in my pain again
Becoming who we are
As my memory rests
But never forgets what I lost
Wake me up when September ends
Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends
Like my father's come to pass
Twenty years has gone so fast
Wake me up when September ends
Wake me up when September ends
Wake me up when September ends

***

Tradução:

Me acorde quando setembro acabar

O verão chegou e passou
A inocência nunca dura
Me acorde quando setembro acabar
Assim como meu pai se foi
Sete anos passaram muito rápido
Me acorde quando setembro acabar
Lá vem a chuva de novo
Caíndo das estrelas
Encharcado na minha dor de novo
Nos tornando quem nós somos
Enquanto a minha memória descansa
Mas nunca esquece o que eu perdi
Me acorde quando setembro acabar
O verão chegou e passou
A inocência nunca dura
Me acorde quando setembro acabar
Toquem os sinos novamente
Como fizemos quando a primavera começou
Me acorde quando setembro acabar
Lá vem a chuva de novo
Caíndo das estrelas
Encharcado na minha dor novamente
Tornando-se quem nós somos
Enquanto a minha memória descansa
Mas nunca esquece o que eu perdi
Me acorde quando setembro acabar
O verão chegou e passou,
A inocência nunca dura
Me acorde quando setembro acabar
Assim como meu pai se foi
Vinte anos se passaram muito rápido
Me acorde quando setembro acabar
Me acorde quando setembro acabar
Me acorde quando setembro acabar





*Raiva: Também conhecida como Hidrofobia é uma doença causada por um vírus. O agente causador da raiva pode infectar qualquer animal de sangue quente, porém só irá desencadear a doença em mamíferos, como por exemplo cachorros, gatos, ruminantes e primatas (como o homem). Possui a capacidade de provocar agressividade no doente, através de infecção dos centros nervosos do cérebro que controlam os comportamentos agressivos e se transmite através da mordida de animais como cachorro, morcego e muitos outros. – Fonte: Wikipedia.

*TV CoLOSSO: Programa infantil de televisão, que substituiu o ‘Xou da Xuxa’, exibido entre 1993 e 1996 na Rede Globo de Televisão. Na TV ColOSSO utilizavam-se bonecos caracterizados como cães, a personagem principal era a sheepdog ‘Priscilla’.